Polícia de Miami vai a casa de lusodescendente por comentário sobre mayor

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Uma cidadã lusodescendente foi, no dia 12 de janeiro, interpelada por dois agentes do Departamento da Polícia de Miami Beach, que lhe bateram à porta de casa para a questionar quanto à autoria de um comentário com críticas ao autarca Steven Meiner, na rede social Facebook.

Uma cidadã lusodescendente que reside no estado norte-americano da Florida foi, no dia 12 de janeiro, surpreendida por dois agentes do Departamento da Polícia de Miami Beach, que lhe bateram à porta de casa para a questionar sobre a autoria de um comentário deixado numa publicação do autarca Steven Meiner, na rede social Facebook. Raquel Pacheco gravou a interação, que divulgou nas suas redes sociais. Face à repercussão a nível nacional e internacional, a mulher espera, agora, que haja uma investigação, “para perceber se é uma prática comum na Câmara Municipal”.

“Estou a ser acusada de algum crime?”, questionou Raquel Pacheco. Com a resposta negativa por parte dos agentes, que lhe asseguraram estarem ali “apenas para conversar”, a mulher abriu a porta e informou-os de que estava a gravar a conversa.

Um dos agentes mostrou-lhe, então, uma captura de ecrã do comentário em causa, ao mesmo tempo que questionou se se tratava da sua conta no Facebook.

“Recuso-me a responder a perguntas sem a presença do meu advogado. […] Isto é liberdade de expressão. Estamos nos Estados Unidos, certo? Sou veterana”, frisou a mulher.

Ainda assim, o polícia insistiu: “’O tipo que constantemente apela à morte de todos os palestinianos, tentou fechar um cinema por exibir um filme que feriu os seus sentimentos e se recusa a defender a comunidade LGBTQ de qualquer forma (até sai da sala quando votam assuntos relacionados) quer que saibam que são todos bem-vindos aqui. Cara de palhaço. Cara de palhaço. Cara de palhaço.’ Foi você?”https://www.instagram.com/reel/DTa_uiAgU7R/embed/captioned/?cr=1&v=14&wp=540&rd=https%3A%2F%2Fwww.noticiasaominuto.com&rp=%2Fpais%2F2926480%2Fpolicia-de-miami-vai-a-casa-de-lusodescendente-por-comentario-sobre-mayor#%7B%22ci%22%3A0%2C%22os%22%3A472.8000000715256%2C%22ls%22%3A301.5%2C%22le%22%3A323.89999997615814%7D

Depois de Raquel negar novamente dar qualquer tipo de resposta, as autoridades apontaram estarem “apenas a tentar evitar que alguém fique agitado ou concorde com esta declaração”.

“’O tipo que constantemente pede a morte de todos os palestinianos’… Isto pode levar alguém a fazer algo radical. […] Se foi você, evite publicar coisas assim”, disse um dos agentes.

Após fechar a porta, a lusodescendente confessou ao The Washington Post que ficou atónita com a situação.

“Havia polícias à minha porta por causa de algo que eu disse. Foi uma sensação muito estranha, como se fosse algo de outro mundo”, disse.

No dia seguinte, a mulher contratou um advogado e pediu acesso aos registos públicos sobre o caso. Se situação se agravasse, Raquel garantiu estar pronta para agir junto da Justiça, uma vez que, apesar de se descrever como progressista, é “conservadora quando se trata da Constituição”, um documento que passou a reverenciar desde que trocou Portugal pelos Estados Unidos, na década de 1980.

“Em nenhum momento o presidente da câmara ou qualquer outro funcionário me instruiu a tomar medidas”

Raquel reside em Miami Beach desde 2004, tendo concorrido três vezes a cargos eletivos locais pelo Partido Democrata. Apesar de ter votado em Meiner, no sufrágio de 2023, começou a manifestar-se contra o presidente da câmara a partir do momento em que o autarca adotou o registo do presidente norte-americano, Donald Trump, com medidas que, na sua ótica, eram cruéis. A mulher expressava a sua indignação através de publicações e comentários no Facebook, a par do trabalho de defesa da comunidade.

De acordo com o Miami Herald, o porta-voz do Departamento da Polícia de Miami Beach, Christopher Bess, confirmou por email que a denúncia partiu do gabinete do presidente da câmara. O responsável não especificou se foi o próprio ou um membro da sua equipa, tampouco se as autoridades foram interpeladas a tomar alguma medida em concreto. Disse, contudo, que a polícia decidiu não lançar uma investigação criminal, após conversar com Raquel.

Já a 16 de janeiro, o chefe do Departamento da Polícia de Miami Beach, Wayne A. Jones, indicou que tinha “sérias preocupações de que as observações [de Raquel Pacheco] pudessem levar a ações físicas por parte de outras pessoas”, e sublinhou que “em nenhum momento o presidente da câmara ou qualquer outro funcionário [o] instruiu a tomar medidas”.

“Dadas as preocupações reais e contínuas, tanto a nível nacional como internacional, em torno dos ataques antissemitas e da retórica recente que levou à violência contra figuras políticas, instruí dois dos meus detetives a iniciar uma breve conversa voluntária sobre certas observações falsas, inflamatórias e potencialmente incitadoras feitas por uma residente, a fim de garantir que não houvesse nenhuma ameaça imediata ao funcionário eleito ou à comunidade em geral que pudesse surgir como resultado da publicação. A interação foi conduzida de forma profissional e sem incidentes”, explanou.

“Quero uma investigação para perceber se esta é uma prática comum na Câmara Municipal”

Entretanto, a mulher admitiu à CBS News que tem “esperança” de que seja realizada uma investigação ao caso, tendo em conta o alcance nacional e internacional que a história teve.

“Estou muito surpreendida. […] Na verdade, estou chocada com a forma como a história ganhou força e se espalhou. Tornou-se notícia nacional e global, e a reação do público é avassaladora, extremamente positiva. Isso dá-me esperança”, disse.

E concretizou: “É incrível ver pessoas de todos os tipos de ideologia política, incluindo republicanos extremistas do MAGA, a contactarem-me pessoalmente e a dizerem: ‘Olhe, não concordo consigo em nada, mas nisto, estou do seu lado’.”

Raquel apelou ainda a que seja realizada “uma investigação para perceber se esta é uma prática comum na Câmara Municipal, se é rotina examinarem as publicações no Facebook e mandarem a polícia bater às portas das pessoas”.

“Gostaria de saber a quantas outras portas bateram, ou se isto foi apenas um caso isolado e se estou a ser alvo de perseguição”, disse.

RCP NEWS

BY; JOAO CONCEICAO