A depressão Kristin, que assolou o país na madrugada e manhã de quarta-feira, 28 de janeiro, provocou danos devastadores em algumas regiões do país.
Os distritos mais afetados foram Leiria e Coimbra, onde os autarcas pediram que o Governo decretasse estado de calamidade. Inicialmente o primeiro-ministro disse que era preciso fazer uma avaliação correta dos estragos antes, mas já durante o dia de hoje, anunciou que o Governo tinha avançado com a declaração.
Milhares de pessoas continuam incontactáveis, sem comunicações, sem luz e sem água. Além dos danos em estruturas, estradas e veículos, seis pessoas terão morrido devido ao mau tempo, apesar de a Proteção Civil ainda só ter confirmado quatro.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, deu conta de que o primeiro-ministro, Luís Montenegro, não só o informou quanto à declaração de estado de calamidade nas regiões mais afetadas pela passagem da depressão Kristin, como “teve a [sua] concordância”.
“O senhor primeiro-ministro foi falando comigo e colocou a questão da declaração de estado de calamidade. Concordei. É uma decisão do Governo. Se fosse estado de emergência, que é muito mais grave, necessitava da intervenção de outros órgãos, – do Presidente, do Parlamento, do Conselho de Estado – calamidade não. Mas não só me informou, como teve a minha concordância. Ficou combinado que ele partisse para o terreno, para anunciar isso e para ver o que se passava”, disse, em declarações à imprensa.
Marcelo sublinhou ainda que, “nos próximos dias”, visitará as regiões afetadas, ao mesmo tempo que frisou ter entendido que “o Governo devia assumir a liderança dos acontecimentos, o que aconteceu”.
“O que é facto é que ninguém ontem pediu a declaração do estado de calamidade. É muito fácil de pedir que tivesse sido há 24 horas, quando os próprios que acham isso não pediram há 24 horas, […] para se ter a exata noção do rescaldo da situação”, disse, complementando que “a declaração do estado de calamidade é um precedente”.
Face as falhas do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP), Marcelo considerou não haver comparação com as situações registadas ao longo dos 10 anos em que ocupou o cargo de chefe de Estado, sendo que, noutras ocasiões, houve mais falhas “do que desta vez”.
“Não há comparação no que se aprendeu e melhorou”, disse.
Situação “complexa”. Anacom admite dificuldades para repor comunicações
A Anacom admitiu hoje que a situação “mantém-se complexa” e que persistem dificuldades para repor o serviço de comunicações nas regiões afetadas pela tempestade Kristin, apesar da deslocação para o terreno de “milhares de técnicos” dos operadores.
Segundo a entidade reguladora das comunicações, as condições atmosféricas adversas “danificaram algumas infraestruturas de telecomunicações, tendo-se registado queda de postes, queda de árvores ou de outras estruturas sobre os traçados aéreos de fibra ótica, danos em torres e mastros de comunicações”.
A Anacom referiu também “a inoperacionalidade de ‘sites’ por indisponibilidade de energia elétrica”, num esclarecimento enviado à Lusa.
Estado de calamidade em vigor até às 23h59 do dia 1 de fevereiro
O ministro da Presidência, António Leitão Amaro, frisou, esta quinta-feira, que “o sistema português de proteção civil e todo o aparelho do Estado estão em prontidão máxima desde o início da noite de 27 para 28 de janeiro”, portanto, “antes da chegada do fenómeno” que tem vindo a assolar Portugal nos últimos dias.
O responsável alertou, após “expressar as condolências às famílias das vítimas mortais”, que “os efeitos desta tempestade não passaram”, pelo que a população deverá manter os cuidados assumidos até ao momento. Nessa linha, o estado de calamidade nas zonas mais afetadas durará até às 23h59 do dia 1 de fevereiro, anunciou, no briefing do Conselho de Ministros.
Este decreto abrangerá cerca de 60 municípios que vão desde o concelho de Mira, a Norte, e os de Lourinhã e Torres Vedras, a Sul, podendo ser acrescentados outros por despacho da ministra da Administração Interna.
Foi ainda ordenada a recolha e identificação de danos imediata, particularmente na região Centro e em Lisboa e Vale do Tejo, sendo que, durante todo o estado de calamidade, os serviços ficarão em prontidão máxima.
Governo em contacto com Comissão Europeia para “formas de financiamento”
O primeiro-ministro salientou, esta quinta-feira, que o impacto da depressão Kristin será “muito vultuoso”, ainda “mais do que aquilo que era expectável no início”.
“Os efeitos desta tempestade serão muito vultuosos, mais do que aquilo que era expectável no início, mas também serão uma outra prova de superação que estará diante de nós”, disse, em declarações à imprensa.
O chefe do Governo advertiu que “todos teremos de colaborar, nos próximos dias, semanas e meses, para nos reerguermos”.
Luís Montenegro adiantou que o Executivo já está em contacto com a Comissão Europeia, por forma a “desenhar e perspetivar formas de financiamento para ajudarmos as pessoas, as famílias, as empresas e as entidades públicas a superarem este momento”.
“Temos a perfeita noção de que o mais importante é o bem-estar das pessoas. Está em marcha todo o processo de apoio para sermos rápidos, céleres, em dar às pessoas a oportunidade de voltarem a ter tranquilidade nas suas habitações e nas suas dinâmicas quotidianas”, disse.
Antes, Luís Montenegro reiterou o seu “agradecimento e reconhecimento pelo esforço notável e incansável de todos no terreno, que estão a diminuir o sofrimento e os impactos negativos para a vida das pessoas, das famílias portuguesas, das instituições, das empresas, dos serviços públicos”.
“Impacto muito grande”. Reposição de luz “não acontecerá de uma vez só”
A passagem da depressão Kristin teve “um impacto muito grande” nas linhas de alta, média e baixa tensão do distrito de Leiria e estão em funcionamento seis de 13 subestações, revelou hoje o secretário de Estado da Energia.
“Sete não estão a funcionar e destas sete há duas em que a E-Redes já está a trabalhar neste momento. Portanto, o trabalho neste momento da E-Redes é de repor a alta tensão e, a partir do momento em que se repõe a alta tensão, começar a energizar subestações através da média tensão”, informou Jean Barroca.
Unidade de Saúde de Leiria regista 232 entradas de doentes com trauma
A Unidade Local de Saúde da Região de Leiria (ULSRL) registou 232 entradas de doentes com trauma associados à depressão Kristin, que está a assolar Portugal continental.
“A ULSRL encontra-se sem comunicações funcionais, sendo possível apenas a comunicação interna”, atualizou a entidade, num comunicado enviado esta quinta-feira às redações.

A mesma nota deu conta de que a instituição de saúde tem uma “autonomia de combustível para alimentação dos geradores estimada em cerca de três dias, com reposição pela Proteção Civil”, sendo que o abastecimento de água já foi reposto.
“Mantém-se suspensa toda a atividade assistencial programada, estando a ULSRL focada exclusivamente na resposta assistencial à situação de emergência, em articulação permanente com a Direção Executiva do SNS e da Proteção Civil”, alertou.

RCP NEWS
BY JOAO CONCEICAO
