“Avançar de mão dada”. Último muro da Europa continental cai em Gibraltar

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O “último muro da Europa continental” caiu em Gibraltar, com a entrada em vigor do acordo entre o Reino Unido e a União Europeia, permitindo a livre circulação. Pedro Sánchez congratulou-se com o fim da vedação, uma “ferida aberta” há 117 anos que agora pode transformar-se numa “cicatriz da História”.

Caiu, às 00h00, “o último muro da Europa continental”. Agora, com a entrada em vigor do acordo alcançado pelo Reino Unido e pela União Europeia que regula as relações de Gibraltar com o bloco comunitário, na sequência do Brexit, a vedação – “La Verja” – que desde 1909 existia em 1,2 quilómetros… acabou.

Pedro Sánchez, o primeiro-ministro de Espanha, congratulou-se esta quarta-feira com o fim da vedação de Gibraltar, uma “ferida aberta” há 117 anos que agora pode transformar-se numa “cicatriz da História”.

Numa declaração aos jornalistas e diversas autoridades locais, Sánchez considerou que hoje se fez “História da boa” em Gibraltar e em La Línea, porque “cai o último muro da Europa continental”.

Sánchez, que como os antecessores no cargo de chefe do governo de Espanha não pisou hoje território de Gibraltar, tendo assistido à remoção da vedação a poucos passos da linha de fronteira, agradeceu aos sucessivos executivos britânicos o esforço para dialogar – e destacou o papel do atual primeiro-ministro, Keir Starmer, para o fecho e conclusão de um entendimento.

“Hoje abrimos uma nova era no Campo de Gibraltar de prosperidade partilhada”, disse Sánchez, referindo-se à comarca no sul de Espanha onde se situa o enclave britânico.

“Uma etapa de convivência, de futuro partilhado entre populações que jamais viveram de costas voltadas, essa é a realidade, mas agora, por fim, sem dúvida alguma, vão olhar-se nos olhos e avançar de mão dada”, acrescentou.

Sánchez considerou que o acordo, que prevê o livre trânsito de pessoas e bens entre Gibraltar e Espanha, assim como a abertura do aeroporto do enclave britânico à aviação civil, é de “benefício mútuo” e que o maior exemplo e mais direto é o caso das 15 mil pessoas que trabalham no território inglês mas vivem no lado espanhol.

Neste momento simbólico e oficial de “demolição da vedação de Gibraltar” estiveram, do lado britânico, o embaixador do Reino Unido em Espanha, Alexander Wykeham Ellis, e o chefe do executivo do enclave, Fabian Picardo.

Veja as imagens hoje captadas em Gibraltar.

Mas o que prevê o acordo entre o Reino Unido e a União Europeia? 

O tratado sobre Gibraltar entre a UE e o Reino Unido, o último protocolo pendente na sequência da saída britânica do bloco europeu (‘Brexit’) em 2020, foi assinado na terça-feira em Bruxelas. O acordo entrou hoje em vigor a título provisório, uma vez que necessita da ratificação do Parlamento Europeu para ser definitivo.

O acordo prevê a livre circulação de pessoas e bens entre o território britânico e Espanha e a eliminação total da barreira física (“a vedação”) em redor de Gibraltar.

Eliminam-se os controlos na passagem fronteiriça terrestre, que passam a ser feitos, tanto por Espanha como pelas autoridades de Gibraltar, no aeroporto e, em alguns casos, também no porto da colónia inglesa.

Segundo o tratado, aplicar-se-ão as regras do espaço europeu de livre circulação Schengen, que Londres não integra, para permitir a entrada em Gibraltar.

A vedação que separa Gibraltar de La Línea de la Concepción, no sul de Espanha, foi levantada em 1909 pelos britânicos e chegou a estar totalmente fechada entre junho de 1969 e 1982 (para passagem de peões) e 1985 (para mercadorias e outras viaturas), na sequência de uma decisão do ditador espanhol Francisco Franco que ditou um bloqueio de 15 anos do território britânico e uma crise social e económica para a comarca espanhola Campo de Gibraltar, onde dezenas de milhares de pessoas se viram sem trabalho e empresas sem clientes repentinamente.

O fim da vedação e do controlo da fronteira tem o valor simbólico de acabar com uma separação física entre milhares de pessoas que partilham o dia a dia e também de fechar o processo do ‘Brexit’.

RCP NEWS

by: Joao Conceicao